leia mais...

POEZINE-SE II

Neste segundo volume, o Poezine-se tem a honra de trazer os textos da uberabense e poetisa Jamila Costa. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

#CONTO - Gente


Júlia, 19, cabelo pintado e tatuagem de borboleta no ombro. Lê Caio F. Abreu. Tinha um caso com o coroa de sua repartição. Três vezes por mês, trocavam o horário de almoço por encontros em um hotel barato. Voltavam para o trabalho cheirando a sabonete.

Marcos, 21, filho de mãe solteira e fã de Chico Buarque. Panfletava poemas de Bukowski no banheiro da faculdade. “Preciso de amor, me liga”. Achou sincero o recado escrito com corretivo em uma das portas. Mas não ligou. Achava que o amor estava fora de moda.

Fernanda, 30, divide a quitinete com três gatos. Dispensou o noivo no altar e mudou-se para a capital. Hoje, equilibra as contas vendendo cosméticos e só consegue dormir depois das 4h e um comprimido de Rivotril. Acordada, a insônia acendia todas as luzes dentro dela.

Tiago, 29, publicitário, gabava-se aos amigos por ter lido Schopenhauer, conhecer toda filmografia godariana e emocionar-se com Chopin. Contudo, era mesmo em casa, sozinho, que se realizava. Disco de Chitãozinho e Xororó no último volume e uma garrafa de Sagatiba.

Juca, 46, contador, pai de uma filha e torcedor do Botafogo. Era quem coordenava o churrasco dominical. Mantinha um olho na churrasqueira e outro na piscina, onde a filha agarrava ao namorado. “Bonita e pervertida, igual a mãe”, pensava.

Luíza, 30, bacharel em direito, poliglota e concurseira. Dizia pro noivo que precisava de ar puro e silêncio. Final de semana sim, final de semana não, rumava-se sozinha para o sítio. Sob a luz fraquinha do lampião fazia amor com Roberto, 31, filho do caseiro.

por Zé Alfredo Ciabotti