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POEZINE-SE II

Neste segundo volume, o Poezine-se tem a honra de trazer os textos da uberabense e poetisa Jamila Costa. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

CONTOS: Ele, ela e o cheiro de chuva


Ele

Era magro e sem jeito. Tinha triviais olhos negros cheios de desgosto. Sempre com um cigarro entre os dedos. Gostava de confundir caminhos e se perder por ruas. Não era simples mania. Traía o óbvio e tentava, entre suas caminhadas, retirar qualquer oportunidade de algo claro. Foi em uma dessas andanças sem rumo, porém propositais, que a viu pela primeira vez.

Ela

Era baixa e inquieta. Tinha um rosto simples, porém, era possível deixar de olhá-la por alguns instantes. Tinha tatuagens espalhadas pelo corpo. Sua preferida era uma nota musical tatuada no pulso, a qual não sabia mais qual som emitira. Aprendeu a dançar tango em uma vídeo aula gravada em fita cassete. Dançava sozinha toda sexta após o trabalho e uma garrafa de vinho. Sempre preferiu a companhia dos livros. Trabalhava a pouco mais de um ano nesta livraria, enquanto sua bolsa de estudos na Argentina não saía.

Encontro

Primeiro o cheiro, depois os primeiros pingos da chuva. Deu uma última tragada no cigarro e o atirou longe. Entrou no primeiro estabelecimento que encontrou, uma livraria. Não se lembrava da última vez que havia visitado uma. Andou entre as prateleiras, folheou alguns títulos pela capa e foi por cima de uma pilha de livros de algum autor best-seller que a viu. Uma sensação rara, para não dizer única. Sentiu vontade de fazer poesia. Escolheu qualquer livro e foi até o balcão. Foi atendido com formalidade. Fingiu ler as frases de motivação escritas nos marcadores, não deixando de admirar a forma delicada em que ela fazia a embalagem e quando cortou com os dentes um pedaço da fita adesiva. Ele agradeceu sem graça. Ela sorriu.

Parêntese

Ao chegar em casa, depositou o livro na estante como símbolo desta primeira paixão. Passou a noite toda o olhando e pensando em uma forma de abordar aquela encantadora desconhecida.

Desencontro

Um dia sim outro não ia à livraria e comprava um livro qualquer. Sabia o horário certo em que seria atendido por ela. Fingia não se importar e foi assim por duas semanas, até que no horário corriqueiro não a encontrou. Uma das funcionárias, que percebeu a frustração, o avisou que ela havia se mudado – enfim sua bolsa de estudos na Argentina havia saído. Naquele dia não levou livro algum pra casa e andando sem rumo, apenas torceu por sentir novamente o cheiro de chuva.

por Zé Alfredo Ciabotti