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POEZINE-SE II

Neste segundo volume, o Poezine-se tem a honra de trazer os textos da uberabense e poetisa Jamila Costa. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CONTOS - Margarida


Júlia perdeu o freio da moto atingindo uma banca de flores. Por baixo de um pneu jazia uma margarida desmaiada, que ninguém viu ou ofereceu socorro. Interditaram a banca e a vida seguiu. A margarida lá ficou. Pálida sobre o asfalto ainda com as marcas do pneu.
 
Foi resgatada por João Cachaça, mendigo e pedinte com residência fixa nas calçadas da região. Lembrou-se da amada que o abandonou por outro. Depositou a margarida no único recipiente que tinha: uma garrafa de 51. João Cachaça roncava quando Tânia, uma garota gótica, roubou-lhe a margarida que estava mergulhada no seu litro de pinga. Com a flor pendurada no bolso da calça, rumou-se para o cemitério para se encontrar com Jenifer, sua namorada.
 
Sentadas no túmulo de um poeta que morreu de tuberculose em tempos remotos, conversaram seriamente. Com a margarida no cabelo - presente da amada - Jenifer disse que não poderiam mais se encontrar, seu pai tinha descoberto tudo e havia um garoto entre elas. Tânia ficou em silêncio e abandonou o túmulo do poeta escondendo o choro. Jenifer respirava aliviada por ter se livrado do problema com o pai. Tirou a flor dos cabelos e deixou-a sobre o túmulo.    
 
Margarida ali ficou sobre a tumba do poeta falecido. Foi quando surgiu um homem de gestos delicados, rugas no rosto e roupas antiquadas. Era Francisco. Que aos 72 anos considerava-se o último fã vivo do poeta morto e diariamente ali iria manter um diálogo com a tumba do artista. Estranhou a margarida já um pouco murcha e tão delicadamente depositada sobre o túmulo.
 
Entusiasmado, segurou-a com destreza e declamou um verso do poeta morto. Com os olhos transbordando, deixou o cemitério levando a flor misteriosa. Não percebeu quando a margarida – levada pelo vento – alçou voo de seu bolso.

Margarida caiu sem entender nada e foi apanhada por um tipo adolescente que por ali passava. Sentou-se no banco da praça e despedaçou-a com cuidado. Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer.
A brisa do final da tarde fez com que as pétalas dançassem no ar e por pouco tempo, muito pouco mesmo, Júlia, João Cachaça, Tânia, Jenifer e Francisco voltaram a acreditar no amor.

por Zé Alfredo Ciabotti