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POEZINE-SE II

Neste segundo volume, o Poezine-se tem a honra de trazer os textos da uberabense e poetisa Jamila Costa. 

sábado, 20 de julho de 2013

VALE 1 PLAY: A hora mais escura


A hora mais dura é essa hora escura.

A hora em que os homens abrem os olhos. 
E ainda não conseguem ver. 
A hora em que as feras adormecem. 
E a esperança se descobre do medo.

A hora mais dura é a hora da fome. 

Em que tontos, tropeçamos.
Em todas as fomes.
De todos os homens.

Onde nenhum santo dá conta. 

Nenhum gênio pode ajudar.
A hora mais dura é essa hora escura. 

Onde uma mão não encontra seu cajado 
Nem sua sombra. 
Onde todas as bandeiras são em vão.
Porque não dão conta do homem.
Nem mais da sua solidão.

E agora os gritos, as bombas, os tiros. 

A multidão junta. 
A multidão em cada um. 
E o futuro sobre os ombros. 
E lá, o céu que nos projeta. 
E cá, o chão que firma cada passo.

Mas nós, ainda 

Como sombras num quarto
Tateando uma saída e um além. 
Como lágrimas na chuva
Lutando por não se dissolver.


E a rua. 

E nela o nosso troco. 
Todos agora cobradores. 
Desse preço que sempre se pagou. 
E nunca se recebeu nada em troca.

Esses 20. 

Tão pouco. 
Moedinha que se troca por esperança. 
E por consciência.

O troco que todo mundo joga fora. 

Que ninguém se lembra de guardar. 
Hoje, o troco que será lembrado não pelo que vale. 
Mas pelo que representa. 
O valor absurdo a ser levado pra casa.

O mundo nos devolverá a rotina e à engrenagem. 

A selvageria de todo dia. 
E rodaremos de novo a roda malograda. 
Máquina a nos devorar. 
Subiremos de novo neste ônibus. 
Mas agora o ônibus em nossa sala de estar. 
E nós nunca mais os mesmos. 
Nem no mesmo lugar.

Porque a mudança não é que vem. 

É o que já é. Já está.
É essa memória impressa nos olhos. 
Peso nas costas pela responsabilidade por um tempo. 
É essa urgência que te apressa, 
Esse mal-estar que te atropela.
É a comoção com os passos tortos e cegos. 
O dos outro e os nossos. 
São os olhos arregalados de quem não pode mais deixar de enxergar.

Mas porque a hora mais dura é essa hora escura. 

Ela não precisa ser a hora tardia.
Nem a vazia. 
Porque os olhos só se abrem ao caminhar. 
E o caminho só se faz quando passamos por ele. 
Andemos... então. 
Não para construir o caminho 
Ou para ver mais. 
Mas para que a história se lembre de nós. 
E nós, do que fizemos com nossas sombras. 
Que não foram poucas. 
Que não foram em vão.

* Por Renato Cabral